Por
Denise Moreira
Luciano Sampaio Di Creddo
Suely da Silva Lima
Denise Moreira
Luciano Sampaio Di Creddo
Suely da Silva Lima
A segunda filha dos cinco que nasceram na família Silva, Mônica, 45 anos, pode ser considerada um exemplo de uma mulher, negra, brasileira e bem sucedida que fez de cada obstáculo em seu caminho um degrau para um dia chegar lá. Secretária executiva da FEMA (Fundação Educacional do Município de Assis), tem dois cursos superiores: Letras e História, na Unesp (Universidade Estadual Paulista).
Mônica dedica boa parte do seu tempo ao Instituto do Negro Zimbauê, do qual é presidente e onde desenvolve atividades buscando uma sociedade mais justa e humana, na qual os negros tenham o seu valor reconhecido. Além, é claro, de cuidar da casa e do marido, com quem é casada há 14 anos.
- Posso me considerar uma pessoa privilegiada e, por isso, agradeço a Deus e a meu pai José Maria. Ele era guerreiro e sempre nos orientou, e nos fez perceber que se estudássemos conseguiríamos fazer a diferença. Todo mundo sabe que o estudo abre portas e muda o futuro e isso transformou a minha vida. Algumas pessoas me consideram bonita, inteligente, batalhadora, sei que se comparada à maioria dos negros posso me considerar privilegiada. Sou uma vitoriosa, sem dúvida nenhuma e isso devo, principalmente, a minha família.
Eu sou extremamente positiva, calma e perseverante. Não desisto fácil. Essas são características que tenho desde pequena. Lembro da minha irmã, ela tinha muita facilidade em assimilar o conteúdo das aulas, já eu...demorava mais para entender, porém me dedicava e, com paciência, treinava, refazia os exercícios várias vezes, até aprender. Essa sou eu: determinação.
Antes de me tornar a Mônica de hoje, venci muitos obstáculos: morei fora um ano e voltei para Assis depois que a minha mãe faleceu, fui discriminada, perdi oportunidades de emprego por ser negra. Para chegar à faculdade fiz cursinho comunitário. Do preconceito sempre fica algo negativo, mas com o tempo a gente tenta esquecer e superar.
Algumas pessoas querem mudar o mundo, eu só quero fazer a minha parte e ajudar a melhorar a realidade em que eu vivo!
Sempre me pergunto onde estão os negros do Brasil e mais importante ainda, onde estão os negros de Assis. Quantos médicos negros nós vemos aqui na cidade? Quantas negras, gerentes de bancos ou de lojas nós temos em Assis? Quantos negros ocupando lugares de destaque em empresas? Quero ver mais negros fazendo compras no shopping, freqüentando bons restaurantes, bons lugares e não apenas trabalhando como segurança ou vendedor. Nós, negros, devemos nos questionar e buscar nosso espaço. Muitas vezes nos foi dito que somos inferiores, desprovidos de conhecimento e isso não é verdade.
Existe uma regra, maquiada pela sociedade estabelecendo que devemos negar nossa raça, nossa origem, esse é um dos nossos maiores problemas. Durante um bom tempo da minha vida eu alisei meu cabelo, porque era isso que se esperava. Hoje eu assumo minha negritude deixando meu cabelo crespo, usando roupas coloridas e na minha casa, eu tenho objetos da cultura afro. Se não assumirmos nossa negritude, como podemos buscar uma sociedade mais justa?
Nós tentamos, com o trabalho no Zimbauê, quebrar, transformar esses paradigmas, romper essa ideologia que procura legitimar a escravidão. Nossa missão é mostrar a essa nova geração que eles podem sonhar e vencer. Por isso, trabalhamos nas escolas com os adolescentes, falamos de coisas que nunca foram ditas, mostramos que eles são capazes, são alguém e sentimos que o nosso objetivo está sendo alcançado quando vemos o brilho nos olhos deles. É uma luta constante contra a desigualdade racial, a busca de uma identidade negra definitiva. Acreditamos que todos merecem oportunidades iguais, independente de raça, cor, sexo e posição social. Mostrar que todos podem ocupar o seu lugar ao sol é um desafio que superamos a cada dia.
A discriminação continua existindo, o que mudou foi minha atitude, a medida em que nos reconhecemos como negros, aprendemos a lidar com ela e passamos a ser mais felizes. Sou feliz. Eu ocupei o meu espaço!
(Texto desenvolvido para a disciplina de Jornalismo Comunitário)



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