quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O melhor tempero de feira (especial)

Foto: Jaqueline Bueno



Jaqueline Bueno

Suely da Silva Lima


Em um telefonema, numa fala firme porém desconfiada, a vendedora de pastéis passou as primeiras informações necessárias sobre a Associação dos Feirantes de Assis e Região e pediu para marcamos um encontro.


Às 15h, horário em que ela estaria teoricamente desocupada, na Rua Antônio Luciano Gomes, em uma casa em reforma onde não se podia ver o número, foi identificada porque “fica em frente ao 565, é o 566”. Uma doce senhora vestida com uma blusa branca estampada de rosa com uns raios azuis, shorts, chinelo nos pés e um óculos de grau que disfarçavam o verde dos seus olhos, atendeu a porta.


Edneide Dalle Vedove, tem 46 anos, é casada e teve o seu segundo filho aos 40. “Senti uma bolinha do lado da barriga. Como eu sempre estive com sobrepeso, não percebi. Fui ao médico, contei o que estava acontecendo e ele disse que era para já fazermos a ‘ultrasom’. Estranhei, mas fiz. Ele virou a tela da máquina para mim e disse que eu estava de quatro meses.”


Diego está com seis anos e em 2010 vai para a primeira série. Ele é irmão de Rogério de 25 anos que cursa Administração e acabou de ganhar um concurso interno da faculdade, junto com os colegas, como a melhor criação de uma empresa.


Para cuidar dos filhos e conseguir construir a casa, Edneide sempre teve o apoio do marido, Roberto. Eles começaram vendendo verduras na feira. Depois, o marido conseguiu um emprego numa empresa de médio porte e ela não quis ficar parada. Decidiu continuar na feira, mas resolveu trabalhar com algo que ela já sabia fazer e foi vender pastéis. Aprendeu a dirigir e “começou a se virar”. Nesse meio tempo, o marido ficou desempregado e ela não parou.


Com 1 mês de vida, Diego ficava com uma conhecida de Edneide, que recebia R$10 pela ajuda. Quando chegava a hora de amamentar, a mulher levava o bebê na feira para a mãe. “Os clientes já sabiam, daí eu parava um pouco de atender e ir dar leite para ele”, conta com um brilho nos olhos e um sorriso estampado.


Hoje, a vendedora de pastéis tem dois funcionários que a ajudam aos domingos. Assumiu, voluntariamente, a tesouraria da Associação dos Feirantes e chora ao dizer que apesar dos problemas, ama o que faz. “Eu fico emocionada, porque mesmo algumas pessoas desconfiando de mim e do meu trabalho, eu acredito no que eu faço e acredito nos amigos que tenho na feira”.


Ela participa de quase todas as feiras e fatura por dia cerca de R$400. Trabalha como feirante há 19 anos e não pensa em parar. O segredo para o pastel de feira, ser o verdadeiro pastel de feira ela não revela. Mas afirma: “O melhor tempero é o meu”.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Nós fazemos a verdade todos os dias


Por Jaqueline Bueno


Agora percebo que o fim é imaginário, ele não existe. A vida é puro movimento, ela cíclica, apesar de efêmera. Quando penso que estou terminando algo, começo tudo de novo. Apenas a maneira, a forma e o cheiro são diferentes. Mas o movimento e a energia depositada na ação continuam iguais, intactos.


Aos 17, fui em busca de um tesouro perdido e caí lá pelas bandas do litoral paulista. Durante o primeiro mês, fui de ponta a ponta da cidade de Santos: a pé, de bicicleta alugada, de ônibus, com tênis, sem ele, perdida, achada, triste, ansiosa, animada ou não. Tudo devido a um despejo de umas pessoas que eu havia conhecido há poucos dias. Fui com elas. Paramos em São Vicente, primeiro ponto dos descobridores do Brasil, e foi dali que tentei partir novamente.


Quatro meses. Um tempo para se descobrir que temos certas alergias que, na sua cidade natal, jamais imaginara ter. Uns medos que antes nunca fizeram o sangue percorrer pelo corpo com tanta intensidade. Uma angústia desprezada pelos sorrisos dos amigos que deixei.


Lá tudo enferrujava, eu enferrujei. Com a chuva, um legítimo vendaval que faz o barquinho rodopiar dentro do mar, as palmeiras entortarem ao ponto das folhas tocarem o asfalto, como a vara de condão da fada madrinha ao dar o vestido novo para a Cinderela e há sempre a tal meia noite - , como nos contos, a magia acabou e a realidade veio à tona.


Embaixo de um ponto de ônibus, de guarda-chuva fechado nas mãos, porque se abrisse o perderia em segundos, senti o meu corpo mudar e pude pela primeira vez observar a sensação em cada parte dele.


Em seguida, olhando pelo vidro do ônibus, as gotas de chuva escorriam junto com as minhas lágrimas. Cheguei ao outro extremo, desci e fui até a porta do apartamento em êxtase, sem enxergar ponto algum. Aquela foi uma das piores noites da minha vida.


O relógio fazia um tic-tac infernal. Contei cada segundo com o toque daquele despertador. Sentada na cama. Chorando. Às seis horas da manhã, exatamente, passei as mãos pelo rosto. Desci do terceiro andar sem um tostão no bolso.


Alguns metros a frente vi a primeira pessoa da manhã chuvosa, era o dono da banca de jornal localizada na Avenida principal. Ele se incomodou e perguntou o que acontecia; estava sem condições nenhuma de lhe dar uma resposta, mesmo assim o homem insistiu. A resposta foi “Preciso falar com a minha família”. O maior presente que eu poderia ganhar naquele dia: um cartão telefônico, novinho, de 20 unidades.


Caminhei até o telefone público, passando pelo meu prédio, pela rua da feira, pela ferrovia e, desejava que estivesse em funcionamento para me levar de volta, pela padaria. Disquei os números por instinto e bastou um primeiro “alô” que desabei novamente junto com a chuva torrencial.


As nuances da minha vida não pararam por aí. Voltei para casa, para o meu lar e fui recebida sutilmente pelas pessoas que acreditaram na minha partida e esperavam um retorno mais alegre, mas infelizmente, como dizem por aí, a “juventude é uma caixinha de surpresas”.


Aos 18, entrei na graduação com a certeza de que poderia mudar o mundo por meio das palavras. Ilusão. Ingenuidade. Agora, aos 22, continuo a valorizar o movimento, o ciclo e, principalmente, a relação de todas as coisas pelas quais passei e ainda passo. São intrínsecas, não se separam, estão ligadas na mesma frequência, talvez não ao mesmo tempo, mas sempre juntas. Cazuza dizia “o tempo não pára” e eu completo, “a vida também não”.


Por isso, decide transformar os meus dias e as pessoas que passam por eles. Boas ou não. Gentis ou não. Velhas, novas ou usadas. E fazer da quimera o real. Do intangível, o palpável. Esta é uma parte da minha vida que continua no mesmo ritmo de quando resolvi, pela primeira vez, me mexer e tentei descobrir o que é e qual é a minha realidade.


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Um certo alguém

Por Suely da Silva Lima


- Então.... talvez sábado eu não esteja mais aqui.
De repente bateu forte e mais claro e o eco das palavras me arrepiou. Pela primeira vez em dias a realidade foi tão real que chocou. E a realidade é salgada. Tem gosto de lágrimas, como as que escorreram em meu rosto ao longo deste ano quase a cada aula, a cada texto trabalhado na tal escrita total, ou seja lá que nome se dá aos exercícios que nos faz expor a alma de uma maneira dura e impublicavel. Como as lágrimas que dançam uma valsa triste com as meninas dos meus olhos agora, teimando em escorrer. Mas ainda firme, balançando como duas pérolas ao vento. Mas pérolas balançam? Não importa.... este não é o momento para ser racional.

Você não estará mais aqui. Sei, sei que você continuará a existir e coisa e tal e que não nos deixará, que apenas está a alguns muitos quilômetros ou apenas a um toque de celular, ou um clique no msn, sei também que o e-mail aproxima as pessoas. Sei de tudo isso e, pela primeira vez, não tenho vontade de explicar, pois o nó cada vez maior em minha garganta ameaça desatar em uma corredeira d´água a qualquer momento.

Vou sentir sua falta.

Lembro do meu ingresso no mundo acadêmico e nunca imaginei que o livro de capa preta selaria nossos destinos. Nossa que drama! Bom, mas enfim, o primeiro passeio pela Biblioteca “Ada Pellegrini” me levou até a prateleira de Trabalhos de Conclusão de Curso, uma família de livros de capa escura e dura, enfileiradas lado a lado em uma seqüência não muito lógica a meus olhos inexperientes na arte de procurar livros por tombo. Até então meus passeios pelas bibliotecas das escolas eram realmente passeios, tocar os livros, virar páginas, orelhas, pés, (parece feijoada). Tocar os livros mesmo e depois ver qual eu queria: nunca procurei um livro por autor. Mas enfim, ali estava eu procurando um cara que tinha um nome, mas para encontrá-lo eu teria que acha-l0 pelo número.Com o dito cujo em meu poder, me deliciei e me aventurei pelas páginas do investigativo e descobri que gostava daquilo e daquele cara. Não o conhecia, não sabia como era seu rosto, suas mão, pés, cabelo. Nada!

O que um livro pode dizer de uma pessoa? Tudo! Pois com o livro descobri que o autor era uma pessoa ética, honesta, cuidadosa, caprichosa, inteligente, gostava muito de ler e zelava pela informação correta.

Eduardo Reis. Sem saber você marcou minha entrada no mundo do ensino superior e por querer você marca minha saída do mesmo mundo. Hoje, você tem rosto, voz, olhos castanhos contornados por óculos imperceptíveis, cabelos curtos e grossos, mãos bonitas, barriguinha aparente, um jeito de andar meio engraçado e uma risada que surpreende. É o Dú!!! O cara que nos faz olhar para nós mesmos. O “tio” legal meio-chato que nos faz querer ser melhores a cada dia, a cada minuto.

O nó agiganta-se na garganta segundo a segundo e o medo de não conseguir terminar o que comecei cresce junto com ele. Desta vez não estou preocupada em conter a torrente que me sufoca o peito. Dú, pode parecer o maior clichê da paróquia, rsrsrrsrs, mas as lágrimas correm frouxas agora e nem tenho vontade de impedi-las. Sei o quanto sou Eu e tudo o que isso significa e agradeço cada segundinho passado com você, cada minutinho compartilhado, cada riso, cada palavrinha bebida na fonte de sua sabedoria....e aí ancião? Rsrrrs...Sei que estou exagerando nos adjetivos e tal, mas agora não é hora de bloquear o tal lado direito não é mesmo? Mas só para encurtar a história e acabar com esta choradeira toda, até porque está ficando difícil de enxergar, gostaria que soubesse de verdade: você vai fazer muita falta e nem é pelas caronas, nem pela Fábrica , é apenas por você!

Sempre brinco que os ídolos morrem aos poucos, pela boca, mas tenho o maior prazer em dizer que você é uma exceção, pois quanto mais você fala e nos mostra um pedacinho do Dú, mais te admiro e sinto-me honrada por ter podido, por um breve espaço de tempo, aprender com você.
Obrigada pela generosidade e até um dia qualquer.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Manhã de domingo

Por Suely da Silva Lima
e Jaqueline Bueno



Foto: Jaqueline Bueno


Os dias da semana têm nome e sobrenome e vem recheado de atividades: segunda-feira trabalho, escola, academia. Terça-feira mais escola, mais trabalho, menos lazer. É engraçado que o que consideramos o primeiro dia da semana, na verdade seja o segundo. Coisas inexplicáveis! E segue o desfile de dias separados por noites e luas. Quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira. Sábado e domingo são assim, pelados. Órfãos de feira. No nome, pois no fim, são os melhores dias para feirar. Encontrar gente nova, cumprimentar velhos amigos, comprar verduras e legumes mais baratos e mais fresquinhos que os do mercado. Sem contar o clima de camaradagem, a zoada crescente de vozes, o cara da barraca de frutas que insiste para você aceitar um pedacinho “do abacaxi mais doce que o mel”, o pastel cheirando longe, a água pingando do alface recém colhido. Até o peixe e o frango, que nem sempre cheiram bem, neste cenário, faz sentido. Feira é sempre assim.

Mas a de domingo...Ah, a de domingo tem sabor especial, é o dia em que se pode desfrutar a feira, sem pressa, ver o sol apontar preguiçosamente manchando o céu com suas cores vibrantes enquanto os feirantes esticam suas lonas coloridas para receber o público. Um aceno aqui outro acolá, um aperto de mão outro no tomate e assim segue de barraca em barraca.

Foto: Jaqueline Bueno

Quando o Paschoal, o Josué, a Adeusir e o seu João estão chegando para começar o expediente, os boêmios estão encerrando a noitada, na feira. Curtindo a melancolia da manhã domingueira e ansiosos por saciar a fome esquecida durante a noite frenética, fazem volume na barraca de pastel dando um fim ao dia começado no sábado. A feira é uma extensão da balada.

Seu Zé, Dona Maria, Doutor Ricardo, Tia Beth, Professora Mara, Beto, Deco, Lia, Ana, mamãe, papai, Vó, Josué, Marilza, Paschoal... a feira é democrática assim. Todos tem vez e voz. Se conhecem ou não. São amigos ou não. Se reencontram ou não. Mas com certeza voltam. Até o próximo domingo!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Assinado, o bom velhinho

Por Jaqueline Bueno


Hummm!!! O Natal está chegando e com ele vem o presente, o brinquedo, as festas e até o amigo secreto. Isto tudo, óbvio, para aqueles que conseguem com esforço o dinheiro para a compra e a realização do esperado 25 de dezembro. O simbolismo da data, as preocupações de todo o ano ficam em segundo plano, assim como o homem com suas renas já quase não passam mais pela chaminé. De qualquer maneira, muitos ainda aguardam a chegada do “velhinho”. Acha que estou brincando quando falo assim, não é? Mas pode acreditar, Papai Noel existe sim.


Quando criança pensava que Papai Noel tinha barba e cabelos branquinhos como a neve, roupa vermelha, botas, trazia um saco cheio de presentes e dizia: HOHOHO! Sem contar a cartinha, com um pedido, colocada ao lado da árvore com bolinhas e estrelas para que ele pudesse vir durante a noite e deixar o esperado presente de Natal, com a ajuda da mamãe, claro. O tempo passou e continuo seguro de sua existência.


Mas será que hoje as crianças pensam no bom velhinho assim como pensei um dia? Vou contar uma coisa: elas acreditam. Porém, algumas têm uma forma especial de esperar por ele. E os pedidos são os mesmos? Agora infelizmente a resposta é não. E quando digo infelizmente, é por comoção de saber que as nossas crianças sonham com um mundo de papais-noéis, e nem precisam estar vestidos com toda sua parafernália, basta ter um saco cheio de presentes: arroz, feijão, assistência médica, lazer, educação e muito carinho.


Nossa cidade está cheia de crianças na expectativa de ter uma mesa farta e uma família reunida. O importante é lembrar que o Natal dessas crianças deveria acontecer todos os dias. De que adianta uma noite de barriga cheia? Como diriam os sábios: “Ensine-os a pescar, não dê os peixes”.


E se você acha que essa história de velhinho de barba branca e saco de presentes é fábula. Use uma só vez a imaginação, como fez quem escreveu essa a tal fábula do Noel e cultive o sonho de uma criança. Centenas delas morrem a cada dia por falta de comida, de higiene e de um abraço. Por isso, termino aqui calçando minhas botas e... AHHRRR! Ufa! Colocando o saco nas costas e partindo para mais um dia dentre os 365 do ano. FELIZ NATAL! HOHOHO!

AÇÕES QUE TRANSFORMAM O MUNDO!

O projeto Passageiro do Futuro existe há seis anos e oferece a oportunidade de inserção social a alunos da rede pública entre 15 e 19 anos.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Vários cliques, uma história




Fotos: Jaqueline Bueno

Aqui você pode criar sua história por meio de uma sequência de imagens! Liberte-se, abra a mente e mãos à obra!

AÇÕES QUE TRANSFORMAM O MUNDO!