terça-feira, 19 de maio de 2009
terça-feira, 12 de maio de 2009
Mais uma ideia!

Toda semana publicaremos fotos nossas e de nossos amigos. Elas serão nosso cartão de visita.
E para começar, vamos divulgar durante o mês de maio o trabalho do fotógrafo e professor Paulo Miguel realizado na "Estrada das árvores", localizada em Maracaí-SP. As fotos foram tiradas durante o ano de 2008 para acompanhar as estações e simultaneamente desenvolvemos um vídeo contando a história do lugar.
Aproveitem!
Jaque Bueno
**
Os dois textos abaixo foram escritos durante a aula de Jornalismo Narrativo - exercício de digressão.
**O Dia em que a terra parou
Por Suely da Silva Lima
- Seu pai morreu.
- Seu pai morreu.
-O QUE?
- Sua tia ligou pra mim lá no serviço e disse que seu pai morreu.
O buraco aberto no chão me tragou de tal maneira que demorei dias para sair dele e perceber o que de fato havia acontecido.
Não quis saber como, quando, nem onde: simplesmente corri. Corri para o mais longe possível e por tanto tempo que as pernas fraquejaram. Não conseguia identificar nem um poste, placa, carro. Nada. Na minha frente apenas um borrão, as lágrimas não me deixavam enxergar.
Lembro de estar parada na beira da rodovia olhando caminhões passando e pensando se eu deveria estar ali.
- Minha mãe deve estar preocupada! Melhor voltar para casa e continuar a estender as roupas. Amanhã tem aula e preciso de roupas secas. Preciso fazer o jantar, a lição. Preciso dormir. Mas meu pai não vai voltar.
- Você me ouviu?
- O que minha mãe?
- Seu pai caiu de uma construção e quebrou o pescoço. Morreu no hospital, já foi enterrado, sua tia Odete ligou para avisar.
Olhei ao redor e percebi que continuava parada, imóvel com uma peça de roupa na mão pronta para estender. No chão de terra batida, uma bacia com tantas outras peças para o mesmo fim.
- Mentiiiraaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa! Ele não morreu. Ele disse que vinha me buscar. Eu estou esperando!
E aí, eu saí correndo...
**Tempos
Por Jaqueline Bueno
No tempo onde não havia explicação nem no dicionário decidi repensar conceitos e estabelecer metas para despertar uma nova visão. Ouvi uma canção no mais íntimo do meu ser e descobri a pessoa dentro de mim. Deixei para trás as más lembranças e o chão de terra batida. O cheiro do mato e de uma planta nativa da região que incomodava não mais se mistura com o aroma do feijão preparado num pequeno espaço onde mal cabiam duas pessoas.
Os ratos dançarinos foram-se em comitiva na direção oposta. A ausência de calor humano, percebido quando se tentava ocupar o último dos únicos três cômodos, não é mais sentida. A confusão feita entre a temperatura do corpo doente e a temperatura provocada pela estação do ano ficou na antiga casa de madeira emprestada por tempo indeterminado.
Carreguei o som das brigas e as incertezas por anos. As seqüelas foram inevitáveis. Não foi escolha, foi o que restou e agora tento não pensar naquele mato no entorno do barraco. As flores plásticas foram trocadas pelas naturais, com o orvalho da manhã. A solidão e a falta do colo materno, por quase 15 meses, trouxeram a maturidade e o pensamento racional.
A cor verde da tinta fresca deu-me inspiração. Antes a divisão dos cômodos era feita com os móveis para nada ficar exposto. Hoje se tornou um tipo de decoração moderna. O silêncio predominante nos poucos metros quadrados foi revertido em acordes no violão. E o concretotransformou a dúvida em verdade e alegria.
No tempo onde não havia explicação nem no dicionário decidi repensar conceitos e estabelecer metas para despertar uma nova visão. Ouvi uma canção no mais íntimo do meu ser e descobri a pessoa dentro de mim. Deixei para trás as más lembranças e o chão de terra batida. O cheiro do mato e de uma planta nativa da região que incomodava não mais se mistura com o aroma do feijão preparado num pequeno espaço onde mal cabiam duas pessoas.
Os ratos dançarinos foram-se em comitiva na direção oposta. A ausência de calor humano, percebido quando se tentava ocupar o último dos únicos três cômodos, não é mais sentida. A confusão feita entre a temperatura do corpo doente e a temperatura provocada pela estação do ano ficou na antiga casa de madeira emprestada por tempo indeterminado.
Carreguei o som das brigas e as incertezas por anos. As seqüelas foram inevitáveis. Não foi escolha, foi o que restou e agora tento não pensar naquele mato no entorno do barraco. As flores plásticas foram trocadas pelas naturais, com o orvalho da manhã. A solidão e a falta do colo materno, por quase 15 meses, trouxeram a maturidade e o pensamento racional.
A cor verde da tinta fresca deu-me inspiração. Antes a divisão dos cômodos era feita com os móveis para nada ficar exposto. Hoje se tornou um tipo de decoração moderna. O silêncio predominante nos poucos metros quadrados foi revertido em acordes no violão. E o concretotransformou a dúvida em verdade e alegria.
terça-feira, 5 de maio de 2009
O quimera da roleta
Por Jaqueline Bueno
Criança é criativa porque não se preocupa com o julgamento de ninguém. Simplesmente vive aquilo que pensa, sonha e acha. E depois de já ter vivido essa fase tão empolgante da vida, resolvi recordar uma das minhas aventuras infantis.
A roleta, a roda, a engrenagem, a... a... aquela coisa que passou a atormentar os meus dias e me tirava o sono. Aquele monstro cheio de graxa que de repente se tornava um monte de metal com um buraco. Ouvi sobre essa abominável criatura em um fim de semana de amoras.
Naquele dia, na casa da minha tia, joguei bola no campinho com meus primos, ‘roubei’ umas amoras na casa do vizinho, três quadras a frente – não tinha idéia de distância para se considerar uma pessoa como tal – e ao voltar, umas das brincadeiras que nos divertia era lambuzar a boca com fruta espremida entre os dedos e chegar gritando: “Aii!! Eu cortei minha mão”.
E lá vem minha tia. “Semana que vem vamos ao centro da cidade, mas teremos que passar pela roleta ao tomar o ônibus. Como vocês ainda não são adultos terão que passar por baixo e segurar firme nos ferros para não cair”. Foi a última frase ouvida antes de penetrar naquele mundo obscuro, naquele pântano da cidade perdida, nas trevas.
O objeto de forma arredondada perturbava minha mente e bloqueava qualquer tentativa de criação. Só tentava entender como seria aquilo que minha tia falava. Naquela época, tomar o ônibus era uma novidade, assim como andar de avião ou de barco. Nada havia me consumido tanto tempo como a roleta. O cérebro passou a trabalhar dobrado; imaginava vários modelos e comecei a ensaiar como passaria por cada um deles.
Pensava: se fosse um círculo giratório pularia como os leões no círculo de fogo. Se tivesse semelhança com a bola de futebol tentaria murchar a barriga, grudaria os braços no corpo e me arrastaria. Mas então vinha um pensamento que me cegava. E se essa roleta for perto da roda? Como eu vou fazer? E minha roupa? Como será que as outras crianças fazem para entrar lá? Deve ser por isso que não precisamos pagar.
Na escola só conseguia desenhar diversas formas desse “bicho” e, em silêncio durante sete dias, inconformada e triste, a minha mente parecia uma caldeira em ponto de ebulição. Olhava para o relógio e pedia para os ponteiros andarem mais lentamente para dar tempo de descobrir a origem da roleta, analisar cada letra daquela palavra e estabelecer sua forma, uma analogia qualquer com um objeto próximo e uma maneira para não sofrer nenhum dano até chegar ao centro da cidade. Meu peito doía, comecei a ter um sentimento estranho pela minha tia. Não comia direito e aquele barulho trerec! trerec!trerec! tocava no mesmo ritmo do tic-tac.
No ponto de ônibus, no sábado de sol muito quente, não suava pela temperatura, mas por causa do medo. Minha tia segurava a minha mão e a da minha prima com força, parecia que era para não fugirmos. Enquanto aquela menina de rosto gordinho, cabelo enrolado e estrábica sentia uma felicidade imensa, eu sentia pavor e continuava a suar ao olhar para as placas e enxergar todas as formas de roleta pensadas até o momento.
Ao longe ouvia o ranger dos motores do longo veículo que levava crianças apertadas naquela coisa desconhecida e apavorante - só porque elas não podiam pagar. Meu coração batia cada vez mais forte, enquanto o ônibus branco com faixas azuis se aproximava. Uma senhora, que também aguardava a chegada do ônibus, acenou para o motorista e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Todas as imagens dos finais de semana perambulavam pela minha mente. O último som ouvido foi o do ônibus parando.
Hoje minha relação com a roleta tornou-se banal e sem graça, assim como muitos seres desconhecidos da minha infância. Talvez as rodas, as engrenagens e os círculos voltem a fazer parte da minha vida, um dia.
Criança é criativa porque não se preocupa com o julgamento de ninguém. Simplesmente vive aquilo que pensa, sonha e acha. E depois de já ter vivido essa fase tão empolgante da vida, resolvi recordar uma das minhas aventuras infantis.
A roleta, a roda, a engrenagem, a... a... aquela coisa que passou a atormentar os meus dias e me tirava o sono. Aquele monstro cheio de graxa que de repente se tornava um monte de metal com um buraco. Ouvi sobre essa abominável criatura em um fim de semana de amoras.
Naquele dia, na casa da minha tia, joguei bola no campinho com meus primos, ‘roubei’ umas amoras na casa do vizinho, três quadras a frente – não tinha idéia de distância para se considerar uma pessoa como tal – e ao voltar, umas das brincadeiras que nos divertia era lambuzar a boca com fruta espremida entre os dedos e chegar gritando: “Aii!! Eu cortei minha mão”.
E lá vem minha tia. “Semana que vem vamos ao centro da cidade, mas teremos que passar pela roleta ao tomar o ônibus. Como vocês ainda não são adultos terão que passar por baixo e segurar firme nos ferros para não cair”. Foi a última frase ouvida antes de penetrar naquele mundo obscuro, naquele pântano da cidade perdida, nas trevas.
O objeto de forma arredondada perturbava minha mente e bloqueava qualquer tentativa de criação. Só tentava entender como seria aquilo que minha tia falava. Naquela época, tomar o ônibus era uma novidade, assim como andar de avião ou de barco. Nada havia me consumido tanto tempo como a roleta. O cérebro passou a trabalhar dobrado; imaginava vários modelos e comecei a ensaiar como passaria por cada um deles.
Pensava: se fosse um círculo giratório pularia como os leões no círculo de fogo. Se tivesse semelhança com a bola de futebol tentaria murchar a barriga, grudaria os braços no corpo e me arrastaria. Mas então vinha um pensamento que me cegava. E se essa roleta for perto da roda? Como eu vou fazer? E minha roupa? Como será que as outras crianças fazem para entrar lá? Deve ser por isso que não precisamos pagar.
Na escola só conseguia desenhar diversas formas desse “bicho” e, em silêncio durante sete dias, inconformada e triste, a minha mente parecia uma caldeira em ponto de ebulição. Olhava para o relógio e pedia para os ponteiros andarem mais lentamente para dar tempo de descobrir a origem da roleta, analisar cada letra daquela palavra e estabelecer sua forma, uma analogia qualquer com um objeto próximo e uma maneira para não sofrer nenhum dano até chegar ao centro da cidade. Meu peito doía, comecei a ter um sentimento estranho pela minha tia. Não comia direito e aquele barulho trerec! trerec!trerec! tocava no mesmo ritmo do tic-tac.
No ponto de ônibus, no sábado de sol muito quente, não suava pela temperatura, mas por causa do medo. Minha tia segurava a minha mão e a da minha prima com força, parecia que era para não fugirmos. Enquanto aquela menina de rosto gordinho, cabelo enrolado e estrábica sentia uma felicidade imensa, eu sentia pavor e continuava a suar ao olhar para as placas e enxergar todas as formas de roleta pensadas até o momento.
Ao longe ouvia o ranger dos motores do longo veículo que levava crianças apertadas naquela coisa desconhecida e apavorante - só porque elas não podiam pagar. Meu coração batia cada vez mais forte, enquanto o ônibus branco com faixas azuis se aproximava. Uma senhora, que também aguardava a chegada do ônibus, acenou para o motorista e uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Todas as imagens dos finais de semana perambulavam pela minha mente. O último som ouvido foi o do ônibus parando.
Hoje minha relação com a roleta tornou-se banal e sem graça, assim como muitos seres desconhecidos da minha infância. Talvez as rodas, as engrenagens e os círculos voltem a fazer parte da minha vida, um dia.
Sopa de Letrinhas
Por Suely da Silva Lima
Tenho lutado com as palavras durante o dia e durante a noite elas brigam comigo nos meus sonhos. Ou pesadelos. Dançam em minha mente, como letrinhas nadando na sopa fria e vazia do meu cérebro. Como no sonho, na vida real eu também não consigo uni-las para formar um texto. Uma frase. Uma palavra. Fico horas pensando, trabalhando, lutando. Na vã tentativa de construir algo, tudo o que consigo é o caos gramatical.
Ao pegar em uma caneta, dormindo ou acordada, invoco os poetas: começo por Deus, o Poeta Supremo “criador do céu e da terra”, a maior poesia já inventada, e termino com o Zé da esquina, dono do boteco perto de casa que, bêbado, recita suas poesias para a noite fria e vazia como a sopa no meu cérebro.
Duelar com as palavras é um exercício árduo, porém gratificante. Cada frase formada é um pulo de alegria seguido de um suspiro de desespero ao perceber que não passa de mais uma linha solta no caos estabelecido. Ah, Drummond! Se pudesses me aconselhar, sei que me dirias para jamais desistir das palavras, pois apesar de “elas serem muitas e eu pouca”, ao final, a beleza do conjunto compensa o desespero da criação. Sei que insistirias que “é do desafio palavra-poeta que nasce a poesia”, que nasce o texto, por isso devo aceitar o embate e sair vencedora. Mas confesso que, as vezes entrego os pontos e deixo-me vencer por este exército de pequenas senhoras, que juntas formam um enorme batalhão.
Drummond, Drummond, gostaria eu de ser “louca para poder encantá-las”, dobra-las ao meu capricho como tu o fazes tão bem. Mas não tenho o seu “toque de Midas”e por isso rendo-me a beleza de seus versos, de sua escrita perfeita, de sua sabedoria, e mesmo sabendo que “lutar com as palavras é a luta mais vã...” continuarei a tentar e errar.
Inimigas ou aliadas? Se usadas com maestria, para o bem ou para o mal, salvam vidas e destroem nações com a mesma eficiência. Trabalhar com palavras, seja oral ou escrita, não é fácil, por isso, desejo boa sorte aqueles que elegeram as letras como profissão. Suely da Silva Lima
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