Por Suely da Silva Lima
Que é que eu tô fazendo aqui? É assim que começa uma música sertaneja muito conhecida, e foi exatamente essa a pergunta que me fiz ao chegar à Vila Maria Isabel. Mas ao contrário da música, minha pergunta não tinha melodia nem o restante da letra, apenas latejava em minha cabeça como um refrão pegajoso de uma balada fúnebre e sem retorno. A cada passo dado, o eco ressoava na cabeça mais forte. O que, em nome de Jesus, eu estou fazendo aqui?
Sem ter muita opção em um bairro desconhecido, com gente desconhecida, comecei a circular, meio tensa, meio receosa. Bateu a sede. Nenhuma casa de amigos, ninguém para pedir água, apenas um boteco no meio de um quarteirão qualquer. Enquanto tomava um refri trincando de gelado, percebi o jogo no campo de malha em frente, curiosa me aproximei. No terreno ao lado um cavalo dava seus últimos suspiros, cheguei perto, olhei bem. Ninguém se preocupa? “Vixe! Tá morrendo faz dias, já tá na hora, esse aí tem uns 60 anos”. Exagero, eu sei. Mas o bicho era só couro e osso, era difícil não acreditar no comentário. Péssimo dia para morrer!
O jogo estava tão animado que não resisti ao convite para jogar também. Deixei o receio e a mochila de lado e joguei como há muito não jogava. Foi legal. Libertador. Lógico que perdi, mas prefiro acreditar que os deixei ganhar, afinal não queria criar encrenca em lugar desconhecido.
Com a disposição renovada, decidi dar outra volta pelo bairro. Parece que nada mudou: na rua os cachorros passam, e fazem o que mais gostam de fazer, o que todo cachorro faz com ciência: os cães latem, mas parece que nesses lados o latido do bicho é diferente. Parece um lamento, ou não. Sei lá acho que estou ouvindo demais.
Pessoas sentadas nas calçadas, sarjetas, cadeiras de área (se são de área porque estão na rua?), ou apenas em pé encostadas no muro conversando com a vizinha. Chegar sem avisar não é um problema, o estranho é avisar antes. Mas neste caso, avisar a quem? Não conheço ninguém! É engraçado como as coisas parecem diferentes por essas bandas, as coisas aqui tem vida. Um frio do cão e as crianças jogando burquinha na rua. Pé no chão, bermudão e moletom. É até engraçado de ver. A vida fora do centro é diferente do que estamos acostumados: cachorro latindo, crianças correndo, gente sentada, conversando, pessoas nos bares. Conversas correm como eletricidade no fio. Sou um estrangeira neste País periferia.
È meio louco: não desconheço, mas não me é familiar, o receio inicial é substituído na medida em que viro figurinha carimbada no bairro, já cumprimento novos-velhos conhecidos, tratando-os pelo nome. Coisas novas se misturam, já reconheço pontos e rostos, é como se estivesse voltando para casa, crianças fazendo festa quando vêem câmera. Engraçado novamente, aliás, este é um sentimento que acompanha minhas visitas: diversão. Coisa boa, novas descobertas, gente sorrindo, virando a cara. “Você aqui de novo”? Pois é enquanto não acabar não paro de vir. E assim vai, gente passando, cachorro latindo...



é incrivél como lugares tão proximos de nós podem ser tão desconhecidos, como podem ser assustador, acho que vocês deixaram bem claro como ficar só em um lugar desconhecido as vezes pode nos amedrontar, adorei o texto, muito interessante da parte de vocês capturarem coisas tão banais como essas e mostrar todos os sentimentos e desejos que fazem parte desses momentos, parabéns, bela crônica !
ResponderExcluiririe lê-las sempre que possével!
Beijos , Nátaly
Oi Nátaly, obrigada por ler nossos textos e por comentá-los. Isso que você falou é bem verdade, mitas vezes deixamos de ver o que nos cerca, ou por estarmos muito focados em nós mesmos ou simplesmente por distração. Seja qual for o motivo acabamos por não ver o que está tão perto...
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