sexta-feira, 10 de julho de 2009

O Novo Jornalismo de um repórter antiquado


Foto: Eduardo Reis

Gay Talese, ícone do Jornalismo Literário mundial, visita o Brasil e faz palestra em São Paulo


Colaboração Eduardo Reis*


“Quando se escreve com mais sensibilidade, com mais cuidado, se escreve com mais liberdade” – Gay Talese – São Paulo, 7 de julho de 2009


Ao abrir as cortinas, como num espetáculo, o pequeno senhor de cabelos brancos, nariz pontiagudo, terno cinza impecável, sapatos bem lustrados e chapéu na mão, adentrou em passos lentos ao palco do anfiteatro do Masp, na capital paulista. O público, cerca de 500 pessoas que esperaram mais de duas horas na fila para vê-lo, levantou-se e aplaudiu. O minuto de aplausos foi gentilmente retribuído com um pequeno sorriso e aceno positivo com a cabeça.


As primeiras filas eram ocupadas por grandes nomes do jornalismo brasileiro, como Matinas Suzuki Jr, Edvaldo Pereira Lima, Mônica Martinez. A estrela da noite de 7 de julho de 2009 – dia do cerimonial fúnebre de Michael Jackson – não tinha relação alguma com o astro do pop. Pelo contrário, o jornalista-escritor norte-americano Gay Talese, 77 anos, é reconhecido exatamente por escrever histórias reais sobre pessoas comuns, anônimas.

O autor dos livros “A Mulher do Próximo”, “Reino e Poder” e “Fama & Anonimato” disse ser uma pessoa antiquada e criticou a postura existente no jornalismo da atualidade. “Hoje as redações são mais sofisticadas, entretanto, no meu tempo, éramos mais céticos, mais incisivos. Os jornalistas de hoje não têm capacidade nem visão para criticar o poder”, afirmou.


Precisão e escrita

Para Talese, a base do bom jornalismo é a precisão das informações e a qualidade do texto. “O bom jornalismo é aquele feito com a verdade e com uma prosa tão bem escrita quanto à literatura”.


Filho de um alfaiate italiano e uma vendedora de vestidos, Talese afirma que aprendeu a reportar ao se relacionar com os clientes dos pais. “Aprendi a me comunicar com pessoas desconhecidas e a tratá-las com respeito. Veio daí o meu interesse por um jornalismo humano. Por exemplo, no esporte o placar dos jogos nunca me interessou. Eu queria escrever sobre os atletas, os juízes e até os jardineiros dos estádios” – ele complementa – “Escrevo tudo do ponto de vista das pessoas”.


Velho Novo Jornalismo

Depois de publicar “A Vida de Escritor”, uma autobiografia em que faz uma reflexão sobre a profissão, Talese prepara um novo livro sobre o próprio casamento. Segundo o autor de “Frank Sinatra está resfriado”, a ficção busca relatar a vida privada, já o jornalismo sempre descreveu a vida pública. Então, ele tentou ver até onde a não-ficção pode ir quanto às vidas particulares.


“Na produção de meu livro ‘A Mulher do Próximo’ [obra a que se dedicou por oito anos] notei que o mundo passava por uma transformação quanto aos conceitos de moralidade, pecado etc. A década de 1960 foi de abertura. Tivemos o início de revoluções de pensamentos. Naquele período eu e outros repórteres, como Tom Wolfe, Norman Mailer e Truman Capote, já notávamos que o jornalismo precisava alterar suas abordagens e elevar o nível do texto. Meu desafio era escrever como os grandes escritores, mas sem a ficção”. Surgia aí o Novo Jornalismo.


Visita ao Brasil

Gay Talese veio ao Brasil para participar da Flip, a Feira Literária de Paraty, no Rio de Janeiro. Ao finalizar sua fala no Masp, o jornalista-escritor afirmou ter ficado impressionado com o interesse dos brasileiros pelos livros. “Foi como participar de um show de rock, mas pessoas estavam lá pela palavra escrita. Não vi isso em lugar nenhum do mundo, nem em Nova York”.


O norte-americano, que também visitou a Editora Abril e participou do programa Roda Viva (TV Cultura), encerrou sua fala com um conselho aos novos repórteres: “É preciso fugir do jornalismo feito por computador. Se você for a campo encontrará informações que não esperava. Por isso não acredito que a tecnologia vá matar o jornal impresso. O que mata é o anseio pela velocidade. O jornal deve passar ao leitor o que ele não tem na internet. Haverá a necessidade dos repórteres passarem informações de forma completa e isso não pode ser feito através desta ‘cultura do laptop’”.


*Eduardo Reis é jornalista, professor universitário, presidente da Ong Fábrica da Leitura e nosso amigo!!

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