terça-feira, 7 de julho de 2009

A Maçã

Por Suely da Silva Lima

Lembro de uma história que marcou minha infância, era mais ou menos assim: Havia um menino muito habilidoso na arte de desenhar e impressionada com o talento do filho, a mãe decidiu colocá-lo na escola mais cedo. A primeira aula era de desenho. O garoto ficou eufórico: poderia mostrar à professora todos os seus dotes. Qual desenho impressionaria mais? O dragão alado ou o samurai? O jato supersônico ou o Porshe Carrera? Nossa! As dúvidas eram tantas que resolveu desenhar tudo. Qual não foi sua decepção ao entender que todos deveriam fazer o mesmo desenho: uma árvore verde com uma maçã vermelha. Resignado, o garoto obedeceu, mas sem nenhum entusiasmo.

Todos os dias ia às aulas, confiante de que aquele, finalmente, seria o grande dia, e ao fim de cada aula entregava à “tia” mais uma árvore verde com maçã vermelha. Num ato de rebeldia, após semanas de árvore verde/maçã vermelha, o garoto inovou e fez uma árvore vermelha com maçã verde. Pobre coitado, nunca viu a professora tão brava.

Tempos depois, já em outra escola, ao ouvir da professora um “pode começar”, o garoto nem se mexeu. Curiosa com aquele comportamento, ela aproximou-se para saber o que estava acontecendo. Com o rostinho ansioso, ele responde que espera as instruções. Sorrindo, a “Tia” diz que o desenho é livre e cada um pode fazer o que quiser. O garoto dá uma corrida de olho pela sala e observa os colegas desenhando avidamente e durante alguns minutos não faz nada além de observar, alienado, o papel à sua frente. Passados alguns minutos, abaixa a cabeça e faz a árvore verde com maçã vermelha mais linda que a professora já viu. Perfeita. Porém opaca. Triste. Sem vida.

É assim que me sinto: um garoto moldado. A ilusão de escrever o que quero foi abalada no primeiro ano da faculdade. Frases como “Olha você pode escrever tudo, desde que esteja dentro do padrão da empresa”. “Se não for contra os ideais da empresa, você pode escrever tudo”. “Tem a objetividade jornalística, que é atrelada ao veículo para o qual você trabalha”. E o sonho de mudar a história com a tinta da caneta? E a “contribuição para uma sociedade melhor e mais justa”? No segundo ano isto é esquecido e o mais importante é fazer a melhor passagem, o melhor roteiro, a melhor matéria. E o outro? A idéia de ser jornalista não é mostrar um mundo desconhecido?

Doce ilusão! Tenho plena consciência de que preciso saber escrever sobre tudo e em todos os estilos e modelos, mas não posso negar que é triste saber que no fundo acabamos nos prostituindo e sendo conivente com um sistema que começa e termina com corrupção. Infelizmente ainda é a Globo, o Estadão, a Folha e a Veja, que fazem a cabeça da moçada. Esses são o sonho de consumo de grande parte dos estudantes de Comunicação. Para eles o período na faculdade é um mal necessário e que vai passar logo.

Desenvolver técnica, imparcialidade, objetividade, ser neutro, disfarçar sentimentos, manter-se distantes. Confesso que se depender de reações como essas para ser uma grande jornalista, acabarei vendendo verduras na feira. Não acho que fazer jornalismo técnica e jornalisticamente seja omitir-se, ignorar as dores do mundo. Devemos lutar para que o Jornalismo seja mais do que uma visão superficial do outro, de mim. O pensar deve ser maior do que o reproduzir modelos pré fabricados. Padronizados. Enlatados.

Nós, jornalistas, somos mais do que simples personagens planos em um conto trágico ou em uma piada de mau gosto, porém divertida, com a única função de entreter o maior número de pessoas possíveis. Devemos ocupar nosso lugar nessa história que está sendo contada, pois a menos que esteja muito enganada somos nós os escritores.

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