Por Suely da Silva Lima
Muito se tem discutido sobre a obrigatoriedade do diploma no exercício da profissão de jornalista. Para argumentar sobre este fato tomarei emprestados alguns versos de Profissão de Fé, do poeta parnasianista Olavo Bilac. Neste poema o autor defende a perfeição da forma a partir de uma comparação entre o ato de escrever e a prática do ourives; à sua maneira, ambos esperam que seu trabalho seja perfeito: Invejo o ourives quando escrevo/ Imito o amor/Com que ele, em ouro, o alto relevo/Faz de uma flor. Não defendo o lead ou a técnica textual, defendo sim a ética e a responsabilidade que deve ter um Jornalista ao passar uma informação adiante. Afinal de contas qualquer um pode escrever. Mas, escrever o que? Com qual critério? Qual o resultado final? Qual a qualidade do que está sendo escrito?
Escrever um texto que será destaque em um jornal, lido por inúmeras pessoas exige, entre outras coisas, um treinamento técnico e neste ponto devemos ser como o ourives que Torce, aprimora, alteia lima/A frase; e, enfim,/No verso de ouro engasta a rima/Como um rubim. Assim é a profissão de jornalista: é necessário crivar de pedras e minérios preciosos as palavras que saem das mãos ou bocas. A abrangência da notícia não exige menos do que a transparência, a informação cristalina e sólida como um diamante.
“O Senhor não é verde, mas é nossa esperança”. Esta frase, vinda de uma das alunas mais dedicadas da turma, na hora causou risos, mas ao refletir sobre ela, confesso certa tristeza. Se uma classe terceiranista de jornalismo verbaliza isso, como dar crédito às pessoas que sequer passaram por uma faculdade? Reconheço que o ensino superior possui suas falhas, mas esta não é uma patologia exclusiva de instituições particulares, muito pelo contrário, é algo que se espalha por todo o sistema educacional. Falta uma fiscalização mais rígida e melhor qualificação do corpo docente, mas também falta empenho e dedicação por parte do aluno.
Para agravar ainda mais este quadro tão delicado, entra em foco a suspensão do diploma de jornalismo, abertamente defendida pelos donos de veículos de comunicação que vêem aí uma maneira de sacramentar conteúdos de seus interesses. De acordo com o Prof. Edson Spenthof, presidente do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo (FNPJ), essa defesa acontece porque eles não querem dividir a tarefa de determinar o que vai ser notícia com um corpo profissional sólido, constituído sobre o conhecimento acadêmico.
É fato que muitos têm o dom e escrevem muito bem há muitos anos, mas daí a dizer que a profissão de jornalista não precisa ser reconhecida ou legalizada é extrapolar os limites do aceitável. O médico ao realizar um procedimento ou prescrever uma receita incorreta pode matar uma pessoa; e como alerta Arquimedes Pessoni, “o jornalista, com um texto contendo informações incorretas, pode matar cem, mil pessoas de uma vez só”.
Pode até parecer absurdo, mas não é. Se um texto não for bem fundamentado, bem construído, se as informações não forem checadas incansavelmente, as conseqüências podem ser drásticas. Ser Jornalista é algo que requer um exercício mental acurado, por isso o conhecimento acadêmico é primordial para o desenvolvimento da profissão. Uma matéria jornalística requer zelo, lisura e eficácia e, o bom jornalista, além de talento e ousadia, precisa harmonizar dados das pesquisas com prosa e poesia. Escrever é mais do que redigir um laudo técnico com uma assinatura de grife, é contar uma história que contribua para o crescimento das pessoas. Para isso, é necessário ter domínio das técnicas jornalísticas para apreender e cativar o leitor ao mesmo tempo em que o informa.
Não nego a credibilidade de um texto escrito por um médico, cientista ou advogado, mas nós jornalistas não tentamos realizar cirurgias, defender criminosos ou descobrir a cura da AIDS. Muito pelo contrário, quando enveredamos por quaisquer destes caminhos, buscamos a interferência e colaboração dos profissionais da área - que estudaram durante anos e se formaram para isso - para elaborar um texto idôneo. Dessa forma deve ser com o jornalismo: os profissionais de outras áreas, por mais título que possuam em suas paredes deveriam, participar apenas como consultores da atividade jornalística, dando subsídios para um texto bem construído e que levem os esclarecimentos à população, ou seja, deveriam ser parceiros visando a qualidade da notícia e o benefício aos leitores que, no fim, são os únicos a ganhar se cada um realizar o seu dever na sua especialidade.
Sei que outros profissionais são capazes de escrever um texto confiável, com conhecimento de causa, mas se um jornalista que passa quatro anos na faculdade desenvolvendo habilidades para redigir de maneira eficiente e fazer uso inteligente das técnicas necessárias para a construção de um texto bem elaborado, ao sair a campo, encontra dificuldades para a prática da reportagem, em apurar criteriosamente as informações, como acreditar que profissionais de outras áreas, após uma jornada diária atuando em sua área, podem dedicar algumas horas a escrever um texto madrugada adentro sem cometer nenhum erro? A menos que sejam profissionais biônicos, fica difícil acreditar que consigam realizar, de maneira eficaz, as duas profissões. E se é para emitir uma opinião sobre determinado assunto escrevam um artigo ou entrem em contato com a seção de leitores. Ou, então, esqueçam sua rotinas e vão para a redação. Só não se assustem com a dedicação exclusiva e exaustiva e com o baixo salário! Jornalismo é sacerdócio, isso pelo menos se aprende na faculdade.
Usei como exemplos profissões em que normalmente encontramos dificuldades para elaborar um texto, mas esses argumentos estendem-se a quaisquer profissionais que se julguem expert em redação. É necessário reforçar a distinção entre um texto jornalístico e outro texto. Com o acesso fácil à internet e a digitalização das mídias, qualquer um pode “ser jornalista por um dia”, mas e a qualidade destes produtos? Não devemos esquecer que nem todas as pessoas têm o discernimento necessário para distinguir uma fraude de um material com embasamento sólido. Se a onda pegar, e todos puderem ser o que quiser por um dia, eu quero ser a Presidente da República.
Novamente recorro a Bilac: Quero que a estrofe cristalina/Dobrada ao jeito/Do ourives, saia da oficina/Sem um defeito:Porque o escrever – tanta perícia,/Tanta requer,/Que ofício tal... nem há notícia/De outro qualquer. Fica aí algo para se refletir: escrever qualquer um pode, inclusive texto jornalístico, desde que sejam respeitadas certas regras.



"Se a onda pegar, e todos puderem ser o que quiser por um dia, eu quero ser a Presidente da República."
ResponderExcluirGenial, Su, é bem por aí mesmo hahaha
Agora fica a dúvida: se eu pudesse ser o que quisesse por um dia, o que eu seria?
Seja você memso! Ou melhor seja uma francesa!!
ResponderExcluirLinda e poderosa.
Suely